Para fugir da crise, bares fazem ‘venda antecipada’

Da BBC Brasil

Em São Paulo, comerciantes apelam para clientes fiéis para evitar fechar as portas

Por determinação do governador João Doria, os estabelecimentos comerciais não essenciais como bares, baladas, cafés e restaurantes estão proibidos de funcionar com atendimento presencial no Estado desde o dia 24 de março.

A medida visa conter a disseminação do coronavírus no Estado, que já tem 631 casos confirmados e é o epicentro da pandemia, com 40 das 46 mortes confirmadas no país. Os estabelecimentos também estão obrigatoriamente fechados desde sexta-feira, por decreto assinado pelo prefeito Bruno Covas.

Três bares que costumam funcionar lotados no circuito alternativo paulistano, o Cama de Gato, no Centro, o FFFront, na Vila Madalena, e o Scar, na Barra Funda, se anteciparam às medidas e baixaram as portas dias antes do anúncio.

Com o caixa vazio e pagamentos a fazer (salário de funcionários, aluguel, fornecedores), a saída foi pedir um adiantamento aos clientes fiéis. O Cama de Gato e o FFFront estão usando a mesma ferramenta: uma plataforma que que promove campanhas de arrecadação online.

Cada comércio tem uma página com um texto introdutório (no qual explicam o contexto do pedido) e, ao lado, um menu com variações de bebidas, comidas, ingressos para shows e o que mais cada casa oferece hoje, mas para ser consumido no futuro.

Na página do Cama de Gato há 10 opções que vão de R$ 50 (o cliente recebe R$60 de crédito antecipado para consumir no local e tem o nome colocado no post de agradecimento da campanha) a R$ 10 mil (o cliente tem direito a uma festa open bar para até cem convidados).

Na do FFFront há 14 opções com preços que variam entre R$ 20 (um drink ou três cervejas ou entrada para um show) e R$ 10 mil (dando direito a uma festa open bar com cem pessoas e uma foto na parede do local).

“A ideia veio nessa madrugada desesperada, pensando em como pagar minha equipe, que é minha prioridade”, conta Bruno Bocchese, um dos donos do estabelecimento, que tem sete funcionários.

A iniciativa do Cama de Gato serviu de estímulo para que o FFFront, que emprega quatro pessoas, fizesse o mesmo poucas horas depois. Os donos do local, Daniel Pereira e Paulo Fioratti, já tinham cogitado a ideia, mas estavam receosos.

Sempre tivemos muita ressalva de pedir as coisas porque fazemos tudo de forma muito independente, não temos sócio investidor e bancamos os gastos dos nossos próprios bolsos”, diz. “Quando o Bruno divulgou a plataforma, vimos que era uma saída legal por ser uma pré-venda com consumo.

O esquema escolhido por Guilherme Scarano, do Scar, foi livremente inspirado nos bares dos amigos e é a venda de vouchers nos valores de R$ 20, R$ 50, R$ 100 ou R$ 200. O negócio é feito via mensagem privada nas redes sociais, onde a campanha está sendo veiculada desde o dia 18/03.

Escolhido o voucher, o cliente faz o depósito e o valor é registrado por Scarano em uma planilha. O crédito será utilizado à vontade assim que a casa, que emprega três funcionários, voltar a funcionar.

Scarano diz ter ficado surpreso com a repercussão. “Muita gente que nunca foi ao bar mandou mensagem dizendo ‘meu amigo compartilhou, gostei da iniciativa, quero comprar um voucher para conhecer o bar quando reabrir'”, fala.

O Cama de Gato e o FFFront estipularam julho como último mês da campanha na plataforma online, embora tanto o decreto municipal quanto o estadual estabeleçam, a princípio, o fechamento do setor por 15 dias, a contar das datas de início.

Percival Coelho, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) de São Paulo, diz que, entre os estabelecimentos pequenos, apenas os que têm alguma reserva conseguirão sobreviver durante cerca de 15 dias.

O maior problema do setor de bares e restaurantes, segundo Coelho, é a folha de pagamento de funcionários, que corresponde a cerca de 30% do passivo de um estabelecimento, e que a solução depende de ajuda do governo federal.

Reação positiva

As campanhas dos bares Cama de Gato, FFFront e Scar estão sendo divulgadas nas redes sociais das casas e disparadas em grupos de WhatsApp de amigos.

Até agora, o Cama de Gato já arrecadou R$ 17.900, o FFFront R$ 4.770 e o Scar, aproximadamente R$ 2 mil. É unânime entre os três que as iniciativas são importantes, mas estão longe de cobrir as despesas e é preciso pensar em outras soluções.

Bocchese, do Cama de Gato, diz que a quantia arrecadada permite o pagamento dos funcionários por apenas um mês e que está buscando apoio de grandes marcas já parceiras no dia a dia.

Espero que também sejam parceiras neste momento catastrófico porque não sei por quanto tempo a ação vai se sustentar”.

A maior preocupação de Scarano é sobre o período de duração do lockdown. “A campanha vai nos salvar por uma semana. Até aqui é uma novidade, as pessoas acham legal e aderem. Mas não se sustenta por muito tempo”, fala.

Para Pereira, do FFFront, a campanha está dando um fôlego mínimo para pagar as contas — a previsão é de 15 dias de cobertura — mas é preciso uma ajuda mais efetiva do governo, como isenção fiscal. “Vamos ver se acontece porque a prorrogação de imposto não melhora nada”.

O empresário se refere à resolução aprovada no dia 18, pela Receita Federal, para minimizar os impactos econômicos da pandemia do novo coronavírus.

A medida permite que optantes pelos modelos de tributação Simples Nacional e microempreendedores individuais sejam dispensados de pagar agora os tributos federais apurados durante três meses da crise.

Dessa forma, os vencimentos de abril, maio e junho serão adiados, respectivamente, para outubro, novembro e dezembro deste ano. Os tributos que vencem em 20 de março precisam ser pagos na data original.

Coelho diz que que a medida dá fôlego para que os empresários sigam abertos durante esse tempo. “No fim do ano, vamos ter mais chance de lutar para acabar de vez com o problema. Se bares e restaurantes fecharem, perde o governo, perdem grandes empresas, prestadores de serviços, grandes setores”, fala. “O governo não pode matar sua galinha dos ovos de ouro.”